Crítica | Alma de Cowboy – Idris Elba estrela drama sobre cowboys da vida real

A palavra “cowboy” ativa memórias no espectador que remete aos tempos dourados do cinema de Hollywood, com os faroestes estrelados por Clint Eastwood e John Wayne –bangue-bangues clássicos no deserto estadunidense. O que muitos de nós não sabia – incluindo boa parte dos cidadãos contemporâneos daquele país – é que os cowboys existem ainda, nos dias de hoje, e um retrato da história desses indivíduos pode ser vista no filme ‘Alma de Cowboy’, lançamento da semana da Netflix.

Cole (Caleb McLaughlin) é um garoto-problema que sempre encontra confusão na escola. Cansada do comportamento errôneo do filho, Nessie (Lorraine Toussaint) decide levá-lo para a casa do pai, Harp (Idris Elba), numa última tentativa de tentar discipliná-lo. Acontece que lá, no interior da Filadélfia, Cole descobre que o pai se diz um cowboy, em plena cidade, e Harp dá mais atenção para qualquer animal do que para o próprio filho. Assim, à medida que Cole e Harp tentam estabelecer alguma relação fraternal, o jovem ainda tenta resistir à tentação de seguir pelo caminho do crime quando reencontra o amigo de infância, Smush (Jharrel Jerome).

Apesar do título em português carregar em si uma ideia de romance de sessão da tarde (o original em inglês é ‘Concrete Cowboy’, caubóis do concreto, fazendo alusão a essas pessoas que cavalgam nas cidades – título que faz muito mais sentido), ‘Alma de Cowboy’ é muito mais do gênero dramático – e, por isso, perde uma ótima oportunidade de abraçar o gênero e construir uma história realmente profunda, que tocasse o coração do espectador.

Baseado em relatos de verdadeiros caubóis do asfalto (alguns aparecem no final do longa), o roteiro de Dan Walser e Ricky Staub é desfocado, elaborando concorrência para si mesmo. Ao mesmo tempo que busca evidenciar a existência/resistência dessas pessoas nas metrópoles, o filme dedica tempo demais em alimentar o desvio de Cole na tentação do mundo das drogas – algo que não só não acrescenta em nada, mas que já está cansativo de se ver em filmes cujos núcleos são centrados em personagens negros. O filme ganharia muito mais profundidade se eliminasse toda essa parte e construísse melhor a escalada do relacionamento pai e filho.

Caleb McLaughlin se afasta de seu personagem Lucas, de ‘Stranger Things’, ao representar um rapaz com problemas de descontrole emocional. Porém, ao mesmo tempo em que caminha na direção contrária ao do papel que lhe deu sucesso, também não oferece nada de extraordinário na sua atuação, dando ao protagonista expressões apenas razoáveis. Igualmente Idris Elba também não dá o melhor de si nesse filme, imprimindo pouca emoção a um pai que em teoria sempre quisera conhecer o filho. Com grande elenco, o melhor em cena é Jharrel Jerome, embora seu personagem seja secundário.

Alma de Cowboy’ tinha um ótimo mote, mas não soube aproveitar. É um filme que nos faz reconhecer a existência desses cowboys que resistem ainda hoje nas cidades – até mesmo aqui no Brasil –, e pensar em como há séculos essa parcela da população vem tendo suas culturas atravessadas por imposições imobiliárias e governamentais. ‘Alma de Cowboy’ convida à reflexão, mas fica só no convite mesmo

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: