Crítica | Luta por Justiça – O Recalque Estrutural do Judiciário Estadunidense

Luta por Justiça’ é um filme baseado numa história real que se passou nos Estados Unidos, mas que muito bem poderia ter acontecido (se é que também não aconteceu) aqui no Brasil ou em qualquer parte do mundo. Esse enredo que conecta pessoas em qualquer parte do globo é o que chamamos de tema universal – a incrível capacidade de fazer com que pessoas de sociedades diferentes sintam empatia e se identifiquem com os personagens do filme.

            Bryan Stevenson é um jovem negro que acaba de se formar em direito em Harvard e quer fazer a diferença; para tal, ele se muda para o Condado de Monroe, no Alabama, em pleno 1987. Lá ele monta uma pequena empresa sem fins lucrativos junto com Eva Ansley (Brie Larson, meio apática no papel, mas vale seu esforço em tentar se desapegar das produções Marvélicas) cujo intuito é oferecer assistência jurídica à condenados à morte na prisão local. Só que quando Bryan inicia seu trabalho, rapidamente se dá conta de que boa parte de seus clientes estão presos injustamente, e que todas as acusações se baseiam em um único fundamento: racismo.

            O roteiro de Destin Daniel Cretton, que também dirigiu o longa, constrói uma atmosfera crescente de ódio camuflado nos personagens brancos moradores de Monroeville, e isso vai gerando um sentimento de indignação igualmente crescente dentro de nós. As situações construídas, fictícias ou não, são próximas da realidade, e, mesmo que algumas delas sejam já clichês do gênero (como o policial branco parar o advogado negro apenas para exercer seu poder sobre ele), a presença delas ajuda a reforçar o tema que está sendo debatido na camada mais profunda do longa: o recalque estrutural que compõe não só o judiciário estadunidense, mas todo os organismos de poder que baseiam esta sociedade.

            Quando Bryan conhece o detento Walter McMillian (Jamie Foxx, por que não recebeste indicação ao Oscar?), também conhecido por Johnny D., o drama se intensifica, pois o espectador fica sabendo que Johnny D. fora preso injustamente por um crime que não cometeu, e estava sentenciado à morte pelo simples fato de ser negro. Além dele, outros detentos são apresentados, como o prisioneiro acusado de colocar uma bomba na casa de uma jovem (o incrível Rob Morgan, que também merecia uma indicação), mas que na verdade sofria de estresse pós-traumático por ter combatido na guerra do Vietnã, e todos possuem a mesma sentença sem provas irrefutáveis.

É esse recalque que faz o Condado de Monroe não conseguir aceitar um advogado negro na cidade, principalmente se ele estiver trabalhando para soltar outros negros já presos. É esse recalque que faz os policiais do longa se acharem no direito de humilhar, coagir, inibir, constranger e exercer poder sobre todos os corpos negros que aparecem no filme (o advogado, os assistentes, os presidiários, os familiares). É esse recalque, tão real e cotidiano, que faz com que a busca por justiça para os indivíduos negros seja sempre mais dificultosa e totalmente arbitrária, especialmente se esta mesma justiça for julgada por cidadãos brancos recalcados.

Luta por Justiça’ é desses filmes que, embora claramente queira emocionar o espectador e fazer uso desse sentimento, se ultrapassa em sua própria proposta e se torna um ótimo exemplo de como a sétima arte pode ser utilizada como ferramenta de debate para as arbitrariedades dos sistemas judiciários mundiais. E você vai chorar – e muito – com a sensibilidade e a crueza dessa interminável ‘Luta por Justiça’, que ultrapassa a telona e transborda para a realidade.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: