Crítica | Um Lindo Dia na Vizinhança – Nostalgia de quando a TV era Ingênua

            É quase difícil de acreditar, nos dias de hoje, mas já houve uma época em que os programas de televisão eram totalmente voltados para a instrução e a educação do espectador. Apresentadores e comunicadores buscavam mostrar, através do entretenimento, melhores e mais eficazes formas do cidadão conseguir otimizar suas tarefas do dia a dia, cuidar dos filhos e melhorar seu desempenho no trabalho.

            Parece distante, mas houve uma era da televisão mundial que foi assim, e muitos comunicadores ganharam fama e prestígio com a forma com que conseguiam alcançar o público de todas as idades, gêneros e etnias. É o caso de Fred Rogers, o queridinho Mr. Rodgers, criador do programa infantil “Mister Rogers’ Neightborhood”, muitíssimo popular nos anos 1960 nos Estados Unidos.

            Tom Hanks dá vida a um Mr. Rogers extremamente polido, controlado e positivo ao extremo. Sua capacidade de entregar uma atuação tão carismática e, ao mesmo tempo, enigmática, é digna dos grandes atores do cinema mundial. Seu personagem ao mesmo tempo que hipnotiza com seu sorriso doce e seu tom de voz sereno, igualmente planta uma dúvida, afinal, não é possível ser tão feliz assim o tempo todo (e aqui podemos gerar um diálogo com a animação ‘Divertida Mente’, que também aborda a importância de não suprimir sentimentos, especialmente a tristeza, que faz parte da formação de caráter do indivíduo).

            Marielle Heller optou por utilizar uma técnica que “envelhece” o longa nos momentos em que são recriadas as cenas de gravação do programa, o que dá um aspecto de anos 60 inclusive para o filme que estamos assistindo. Aliás, a direção de arte de ‘Um Lindo Dia na Vizinhança’ é um primor, não só reconstruindo casas e ambientações utilizadas nas filmagens, mas principalmente por elaborar toda uma cidade em maquete, com miniaturas em escala, alternando com a animação dos bichinhos assistentes de palco. Impossível assistir a estas cenas sem sorrir.

            O roteiro de Noah Harpster e Micah Fitzerman-Blue se constrói em cima das inúmeras mensagens positivas deixadas pelo apresentador, como “a criança só é apoiada pelo que ela vai ser, e não pelo que ela é (o que gera eterna insatisfação dos pequenos consigo mesmos)” ou “perdoar é libertar o sentimento de raiva que damos a aqueles que nos prejudicam”, e consegue manter sua filosofia de vida em todas as cenas estreladas por Tom Hanks.

            Provavelmente o ponto desfavorável de ‘Um Lindo Dia na Vizinhança’ seja exatamente o que o torna uma alternativa ao cinema atual: o fato de que ele conta a bela história de um homem bom, que em nenhum momento se desviou de seu propósito e que, segundo ele mesmo, dedicava 100% de sua atenção a quem estivesse lhe falando. Sem nenhuma reviravolta nem conflitos, o longa é fofo, porém linear, e deixa um sentimento bom ao fim da exibição.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: