Crítica | O Caso Richard Jewell – Os Privilégios da Branquitude dos EUA

Atlanta, Georgia, 1986. Richard Jewell é um sujeito comum, extremamente solícito, cujo sonho era fazer parte da força policial norte-americana, porém, tudo que conseguiu foi ser segurança particular de um escritório, onde conhece o advogado Watson Bryant (Sam Rockwell, esse incrível ator que só pega papel bom). Dez anos se passam, Richard está trabalhando como segurança voluntário nas Olimpíadas de Atlanta, como segurança num show no Millenium Park, quando uma bomba estoura, ferindo dezenas de pessoas. Num primeiro momento, Richard é considerado herói por ter identificado a bomba antes de todos e por ter tentado afastar as pessoas, mas rapidamente a mídia o retrata como um terrorista, acusando-o de ter plantado os explosivos ali. A história, como se vê, é baseada numa história real.

            Dirigido e produzido por Clint Eastwood (juntamente com Leonardo Di Caprio), o longa tem esses ares de filmão de Oscar, com destaque para a dupla protagonista, Sam Rockwell e Paul Walter Hauser (que convence muito como o típico cidadão red neck norte-americano, centrado na guerra e no patriotismo extremista). Em contrapartida, o espaço dado às atrizes é resumido a clichês, no qual Olivia Wilde constrói uma jornalista sem escrúpulos, que consegue as informações em troca de sexo barato, e Kathy Bates, como mãe de Richard, que mima tanto o filho que o tolha de sua independência. Apesar disso, se o longa receber qualquer indicação para prêmio, será por conta de Kathy Bates, que mesmo com pouco espaço, conseguiu entregar um trabalho emocionante.

            Embora tecnicamente bem feito e cheio de propaganda embutida nos momentos adequados (Coca-Cola, At&T, etc), a construção da história – tanto da real quanto da ficcional – não engaja o público, porque parte do privilégio da branquitude norte-americana e do patriotismo exacerbado para reforçar a ideia de inocência de Richard Jewell. Se, do contrário, o policial em questão fosse um homem negro, dificilmente a história teria um final feliz (exemplo disso pode ser visto em ‘Olhos Que Condenam’ e adaptações similares).

            Novamente, o filme é bem realizado, mas a história não tem relevância. O longa de Clint Eastwood busca fazer o espectador se compadecer do protagonista, entretanto, é difícil ter piedade por um homem adulto tão obcecado por normas e protocolos, que parte do seu próprio privilégio branco para determinar quem está fora da lei, quem se torna suspeito – e, obviamente, essas pessoas são aquelas que não pertencem aos padrões estabelecidos pelos EUA, tal como retratado no longa.

            Clint Eastwood é um ótimo diretor, firme em contar suas histórias. Porém, tal como vimos em ‘A Mula’, nos últimos anos ele está focado em contar histórias que realçam o privilégio branco em oposição ao mundo, mas tão somente para ressaltar essa posição de benefício, sem aprofundar o debate. Ainda assim, ‘O caso Richard Jewell’ deve conquistar algumas indicações a prêmios, e, no final, parece que é isso que importa na indústria holliudiana.

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