Crítica | Cadê você, Bernadette? – Cate Blanchett e o papel social da mulher moderna

Onde está você, Bernadette?’ já começa apresentando uma mulher reclusa, que tenta com todas as suas forças afastar o mundo de si e focar sua vida apenas na filha, Bee (Emma Nelson, uma adolescente com bom relacionamento com a própria mãe), em constante esforço de alienação da realidade.

           Bernadette Fox (Cate Blanchett, numa crescente erupção de uma mulher a beira de um ataque de nervos, mas que, porém, tenta a todo instante controlar a si mesma para conseguir se manter em sociedade), gênia da arquitetura, extremamente antissocial, incapaz de construir vínculos com qualquer indivíduo de Seattle, para onde se mudou antes de sua filha nascer. Não bastasse tudo isso, o marido, Elgie Branch (Billy Crudup), convenientemente se acomoda com essa exclusão ambiental da esposa, afinal, ele mesmo é uma pequena promessa da computação, com um projetinho vendido para a Microsoft, portanto, ele fecha os olhos para os evidentes problemas de sua mulher.

            Não é preciso muito esforço para ver em Bernadette o retrato da mulher moderna, que trabalha, cuida dos filhos, cuida da casa e que simplesmente deixa seus sonhos e a si mesma em segundo plano. Soma-se a isso uma profunda crise emocional e estética na qual essa mulher se encontra, em evidente crescente de profunda depressão, à qual sua pequena família é incapaz de enxergar. Bernadette é uma mulher à beira de um ataque de nervos, semelhante às musas de Woody Allen, que se agarra em qualquer pequena respiração de conforto e afeto porque simplesmente não dá conta de cumprir todos os papéis que lhe são incumbidos pela sociedade de maneira a, ainda por cima, se apresentar em público de maneira sociável, arrumada, penteada e feliz.

       O diretor Richard Linklater abre o palco para notório desenvolvimento de Cate Blanchett, e, juntos, os dois constroem um retrato acelerado e nervoso do papel da dupla expectativa feminina na engrenagem social. O resultado é um bom filme com ritmo constante e evolutivo, mesclando diversos gêneros bem marcados na transição dos atos: da comédia dramática, para o drama, para o thriller. Tudo através de um roteiro pontuado com piadas superácidas, mau humoradas, sarcásticas, que anunciam a tragédia iminente.

            Destaque merecido também à carismática Kristen Wiig, no papel da empenhada vizinha Audrey, em um retrato do cotidiano suburbano norte-americano que se ocupa e se engaja da sua pequena comunidade como se sua vida dependesse disso – o que leva ao extremo de tentar controlar a vida dos outros. Hilário, porém real e incômodo.

            A adaptação em longa-metragem de ‘Onde está você, Bernadette?’, baseada no best-seller da Maria Semple, faz competente tradução do papel social da mulher do século XXI, a quem os sonhos é relegado o espaço de último item da lista e a quem o espaço criativo é negado por conta da construção patriarcal da sociedade, que lhe confere espaço social caseiro, não do pioneirismo e do destaque.

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