Crítica | Inacreditável – Machismo na Polícia Gera Erro Irreversível em Minissérie da Netflix

Marie (Kaitlyn Dever, extremamente competente em não desmoronar a cada frame) é uma jovem adolescente que sofre um crime terrível: ela é estuprada por um homem que invade sua casa enquanto ela está dormindo. Sim, assim começa a minissérie ‘Inacreditável’, da Netflix, que, em oito episódios de quarenta e cinco minutos, conta a história de como a polícia de Lynwood foi negligente ao tratar do caso – e que depois mostrou-se parte de uma série de estupros realizados por um mesmo indivíduo. E o pior: é baseado numa história real.

            É preciso alertar que há cenas do estupro em si na minissérie, porém, elas não são evidentes. A diretora Susannah Grant (também responsável pelo roteiro e produção) optou, acertadamente, por gerar cenas que induzissem o pensamento, não que reproduzissem o crime. Tal escolha já demonstra um cuidado na abordagem do tema, que é fundamental para quem é alvo desses crimes: não é preciso reproduzi-los para que o sofrimento no espectador seja gerado; a mera insinuação já é suficiente.

            O primeiro episódio é simplesmente de tirar o fôlego. Acompanhamos a desamparada Marie Adler, que é uma jovem calma e tímida e que já passou por diversos lares adotivos. Um policial homem chega a seu apartamento para colher seu depoimento sobre o estupro sofrido por ela. Depois de Marie repassar todos os detalhes, o policial anuncia que ela terá que depor novamente para seu parceiro investigador, que acabara de chegar. Em seguida, fala que ela terá que depor de novo na delegacia, para que seja registrado. Depois disso, terá que contar novamente tudo o que aconteceu para a enfermeira, que colhia as amostras de DNA no corpo da jovem. Ou seja, a polícia faz com que essa garota reviva seu trauma tantas e repetidas vezes, imediatamente após o crime sofrido, que isso vai gerando uma angústia nauseante no espectador. A gente sofre junto com a forma com que Marie é tratada. Tudo é tão vertiginoso, que pequenos detalhes, como a ordem dos acontecimentos, acabam sendo invertidas, e os policiais se aproveitam disso para contradizer a vítima e convencê-la de que ela estava mentindo esse tempo todo – tudo para que esses policiais homens não tenham que fazer o seu trabalho. O final do episódio é extremamente revoltante, e tudo que ressoa em nossa cabeça é o título da minissérie: ‘Inacreditável’.

            É extremamente relevante apontar que a primeira abordagem à vítima foi feita por policiais homens porque é exatamente aí em que se enraíza o machismo cotidiano enfrentado pelas mulheres. O fato de destacarem dois homens para conduzir o caso de um estupro é uma falta de tato desrespeitosa com a vítima. Esses homens em nenhum momento sentiram qualquer empatia pela situação de violação que Marie sofrera, ao contrário, trataram-na todo o tempo como uma garota alucinada, não lhe dando nenhuma credibilidade ou, sequer, a oportunidade de se fazer ouvir. Tanto isso é verdade que, no início do segundo episódio, vemos uma mudança brusca na forma como o caso é conduzido, quando o crime volta a acontecer em outra cidade e uma policial mulher, a Investigadora Karen Duvall (a serena Merritt Wever) fica à frente da investigação. Uma policial mulher se preocupa com o bem-estar da vítima, se importa com o crime e dá a devida dedicação à resolução do crime, doa a quem doer. É por essas e outras que a Delegacia da Mulher e a Lei Maria da Penha são extremamente importantes em nossa sociedade, pois o olhar diferenciado de uma mulher faz toda a diferença quando a vítima agredida também é uma mulher.

            A entrada da Investigadora Grace Rasmussen (Toni Collette, firme e calejada em um papel que requer liderança) na história ajuda a construir essa atmosfera de sororidade, em que as mulheres precisam poder contar umas com as outras para que seus traumas e suas necessidades não passem invisíveis na sociedade conduzida pelos homens. A colaboração das duas investigadoras faz a diferença para as vítimas.

            E como já foi mencionado aqui, a minissérie foi dirigida, roteirizada e produzida por uma mulher. Na verdade, a ficha técnica da produção é quase toda composta por mulheres, além de ter a participação especial das atrizes Danielle Macdonald  (‘Dumplin’), Dale Dickey (‘Homem de Ferro 3’) e Brooke Smith (‘Grey’s Anatomy’). É ou não é bacana ver tantas mulheres trabalhando juntas?

            ‘Inacreditável’ é uma terrível história real, que precisa ser assistida para pensarmos como podemos melhorar nossas atitudes se tivermos compaixão e empatia pelo outro. Em poucos episódios e sem violência explícita, a nova minissérie da Netflix convida à reflexão sobre a relevância de um olhar feminino em todos os departamentos sociais, e em como essa estrutura patriarcal da sociedade foi e é conivente com o silenciamento e o sofrimento de milhares de mulheres mundo afora.  

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