Crítica | Coringa – Quem é o Verdadeiro Vilão?

            Um dos filmes mais aguardados do ano, um dos filmes mais aguardados do catálogo da DC. E, talvez, um dos mais difíceis de se falar a respeito tão logo a cabine acaba, pois o impacto é tão grande que o justo seria deixar passar um bom tempo para poder traçar considerações. Mas vamos lá.

            A primeira coisa necessária a saber é que ‘Coringa’ não necessariamente se encaixa no DC Universe. O filme se chama assim, mas, na verdade, são poucos os elementos do mundo do Batman que fazem parte dessa história – ou seja, se você não conhece ou não acompanha esse super-herói, tá tudo bem, você vai conseguir assistir o longa e entender tudo sem perder nenhum detalhe. Mas, se você é fã do Homem-Morcego, ficará um gostinho de ver mais elementos que unam os dois personagens – mas nada que estrague o brilho do longa.

            Em uma atuação realmente assustadora, Joaquin Phoenix apresenta um Coringa extremamente afetado pelo sistema, fisicamente frágil e esquálido, mentalmente abalado e psicologicamente a beira de um colapso. A preparação e a entrega do ator para este personagem são impressionantes, de fato merecedora de muitos prêmios. Nota-se que sua dedicação para não sair da mente do Coringa começou bem antes do longa ser rodado, e foi total durante as gravações. Em outras palavras, ele realmente acreditou naquilo.

            É claro que comparações com a atuação de Heath Ledger irão surgir, afinal, seu trabalho em ‘O Homem das Trevas’ também se destacou, porém, é preciso separar as coisas para não obscurecer a dedicação de Joaquin Phoenix. Heath fez uma coisa incrível, sim. Deu início a um aprofundamento maior desse que se tornou o principal vilão do Batman, mas Joaquin Phoenix apresenta uma trajetória visceral, terrível e realista de um sujeito a beira do colapso, aproximando-se do ponto de ruptura, que sabemos que vai acontecer a qualquer momento – e, de fato, acontece, na última cena do longa, de maneira enaltecedora (algo que está incomodando muitos críticos).

            Todd Phillips conduz a câmera e a construção desse personagem de maneira bem intimista, aproximando-o do espectador ao ponto de nos incomodar. Se você não sai mal do cinema, você não entendeu o filme direito. Apesar de suas polêmicas declarações que parecem querer detonar o próprio trabalho, Todd merece aplausos por conseguir retratar um vilão sem vilania, puro sentimento, mas que ao mesmo tempo reforça a construção de uma aura sombria que vem acompanhando não só esse personagem, mas todos os atores que já o interpretaram.

            Mas a pergunta que não cala é: quem é o verdadeiro vilão de ‘Coringa’?  Por esse recorte, o filme aponta elementos contribuintes para a construção psicológica de Arthur Fleck: Batman, a mãe doente, Thomas Wayne, o apresentador Murray Franklin, o sistema. Só que, na real, o verdadeiro vilão na história é o poder – essa ferramenta de controle centralizada na mão de poucos, que dá o direito de dispor e descartar sujeitos como Arthur Fleck, com todas as suas variantes psicológicas distorcidas. E identificar bem esse elemento é fundamental para entender que, no final, Coringa não é enaltecido, mas sim emancipado, pois o controle sobre sua própria vida é retomado e, a partir de então, ele se torna o vilão desenfreado que conhecemos.

            ‘Coringa’ é uma verdadeira aula de construção de personagem e um evidente exemplo do que o poder sobre os subalternos pode resultar num sistema social desigual como o é o Estado Moderno em que vivemos, ainda que fictício.

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