Crítica | Bacurau Não É Um Filme, É Um Verbo de Resistência

            Mesmo quase um mês após ter visto a cabine de imprensa, é extremamente difícil fazer uma crítica de ‘Bacurau’, seja pelo inetidismo temático, seja pelo envolvimento que nós, enquanto críticos e brasileiros, acabamos tendo com o longa.

            Elaborado durante dez anos, o projeto de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles consegue ser um mix de gêneros que há muito não víamos nas telonas, especialmente no Brasil: suspense, terror, faroeste e drama, com uma pitadinha do nosso Nordeste – que faz toda a diferença.

            ‘Bacurau’ é uma cidadezinha pequena com poucos habitantes no interior de Pernambuco. Apesar de fictícia, ela representa inúmeros povoados reais de nosso país continental – cidades estas que não são vistas nem ouvidas, que não aparecem nos mapas e que são esquecidas pelas políticas públicas (porém convenientemente lembradas na época das eleições). Assim começamos a história dessa Bacurau que, de uma hora para outra, desaparece do mapa e recebe a visita de forasteiros esquisitos. Em paralelo, conhecemos o valor de Lunga (o in-crí-vel Silvero Pereira), um combatente da região que luta na disputa pela represa da região, para que o povoado tenha acesso à água que lhe está sendo negada.

            Para a criação desse imaginário de Bacurau, o roteiro faz uma releitura de elementos fundadores da nossa cultura, como os ícones da luta Antônio Conselheiro e Lampião, e com símbolos de resistência, como os cangaceiros. Nesse sentido, fica evidente ao espectador a importância do Nordeste para a formação de referências populares com as quais o brasileiro se identifica no dia a dia – e que, através do longa, presta belíssima homenagem à essa querida região, cujo sofrimento permanece ainda por questões básicas da humanidade.

            Com um elenco afiado que mistura novatos e experientes – Karine Telles, Bárbara Colen, Sônia Braga, Thomas Aquino, entre outros – a história é transposta na telona com competência por todos, o que deixa evidente que a confiança que esse elenco tinha na história é peça fundamental para o pulsar do longa nas telonas. O roteiro é calculado e eficiente, enganando o espectador desavisado, costurando elementos aparentemente desconexos, para conectá-los mais à frente em inesperadas reviravoltas que fazem o espectador curtir e torcer. Por fim, o arco final do filme consegue elaborar uma sequência mais Tarantinesca que o último filme do Tarantino, o que reforça sua qualidade superior à do filme do norte-americano.

            ‘Bacurau’ é dessas pérolas que vez ou outra surge no cinema para nos fazer nos orgulharmos de sermos quem somos. É um filme único, forte, porreta, impactante, profundo, indescritível – e que você vai querer ver de novo. Acima de tudo, ‘Bacurau’ é voz e resistência; ele dá fala a um povo que sofre por ser silenciado constantemente – pelos políticos, pela história, pela geografia –, mas que vem, através desse filme, dizer um grande basta, porque o Nordeste importa e precisa ser ouvido e respeitado.

            ‘Bacurau’ não é um filme, é um estado de resistência, um verbo que devemos conjugar na luta contra o regime que silencia. Bacuremos todos!

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