Crítica | Deslembro – O Não-Lugar em plena Ditadura

Deslembro‘ é uma história sobre o não-lugar. É sobre o quanto a Ditadura impacta direta e indiretamente na vida das pessoas e que, mesmo depois de anos, continua moldando o sentimento de que em nenhum lugar do mundo existe um local para chamar de lar.

Joana (Jeanne Boudier) vive com a mãe (Sara Antunes), o padrasto (Marcio Vito), o enteado e o meio irmão, e essa família está prestes a voltar para o Rio de Janeiro, graças à anistia. Isso significa que Joana deverá se reconectar com um país e uma cultura que mal conhece, e que não tem nenhum interesse, posto que tudo que conhece é a França, onde sua família se refugiou. Tudo isso já é indicado na primeira cena do longa, onde a personagem aparece rasgando um passaporte.

O retorno ao Rio de Janeiro, entretanto, gera o conflito existencial na família, que, ao mesmo tempo que se sente feliz por finalmente voltar à sua terra natal, também tem que lidar com a sensação de que o tão aguardado retorno traria a felicidade completa, e, ao chegar aqui, tudo se mostra como uma mera ilusão. Mesmo tendo os efeitos da Ditadura como pano de fundo, ‘Deslembro‘ se mantém atual, posto a crescente crise dos refugiados no mundo inteiro.

Contado em três línguas – francês, português e espanhol – ‘Deslembro‘ traz uma multicultura que não se preenche no todo nem em seus menores detalhes – o que foi uma boa escolha da diretora e roteirista Flávia Castro, que, através de uma série de alegorias, realizou um longa-metragem centrado nas mulheres e no importante papel de representação do acolhimento do lar numa época em que nenhum lugar trazia conforto e segurança.

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